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Terça-feira, 09 de Junho 2026
Ato do Cordão da Mentira na Paulista recorda os Crimes de Maio

Direitos Humanos

Ato do Cordão da Mentira na Paulista recorda os Crimes de Maio

A manifestação, que buscou justiça pelos Crimes de Maio, também uniu palestinos em protesto contra os 78 anos da Catástrofe Palestina (Nakba).

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No último sábado (16), a Avenida Paulista, em São Paulo, foi palco de um evento que marcou duas décadas dos trágicos Crimes de Maio. Essa série de incidentes teve início com ataques atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e culminou em uma forte resposta policial, resultando na morte de mais de 500 pessoas em todo o estado. Muitos desses óbitos apresentaram fortes indícios de execuções perpetradas por agentes da polícia.

Em meio a muito batuque e canções, a mobilização foi organizada pelo Movimento Mães de Maio e pelo Cordão da Mentira. Este último, um bloco carnavalesco fundado em 2012, utiliza a sátira e a denúncia como ferramentas para confrontar as violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura civil-militar.

Além de clamar por justiça e denunciar a persistente impunidade dos Crimes de Maio, o evento contou com a presença de diversos palestinos. Eles se manifestaram contra a Catástrofe Palestina, conhecida como Nakba, que completou 78 anos e representa o êxodo forçado de seu povo durante o estabelecimento do Estado de Israel.

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Tradicionalmente, o Cordão da Mentira desfila pelas ruas em 1º de abril, data que marca o Dia da Mentira e o golpe de 1964. Contudo, em virtude dos 20 anos dos Crimes de Maio, que ainda carecem de responsabilização, o bloco optou por realizar uma saída extra este ano.

Um comunicado divulgado nas redes sociais sobre a manifestação enfatizou: “Nosso cortejo é uma denúncia, uma memória viva, um clamor coletivo contra o esquecimento e a injustiça. Pois recordar é confrontar, ocupar as ruas e desmascarar a mentira.”

Thiago Mendonça, diretor de cinema e um dos coordenadores do Cordão da Mentira, explicou a essência do grupo: 'O Cordão da Mentira é um bloco carnavalesco que se manifesta anualmente em 1º de abril, Dia da Mentira e data do golpe de 1964, para abordar a violência estatal, tanto histórica quanto contemporânea. Sua origem remonta a uma roda de samba, onde sambistas notaram a presença de indivíduos ligados à repressão em seus próprios ambientes.'

Desde sua fundação, o Cordão da Mentira sempre contou com o apoio e a participação do Movimento Mães de Maio, uma organização criada pelas mães de vítimas dos Crimes de Maio.

Mendonça destacou a importância das Mães de Maio: 'Elas são as madrinhas do Cordão e lideram a manifestação, sempre à frente. Consideramos este um dos mais relevantes movimentos de direitos humanos do Brasil.'

Neste ano, o Cordão da Mentira e o Movimento Mães de Maio optaram por integrar sua causa à luta palestina.

A decisão de unificar o ato, segundo Mendonça, surgiu da percepção de que 'toda a estrutura de repressão em Israel encontra um paralelo na máquina de triturar vidas que é a polícia brasileira'.

Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio e presente na manifestação, enfatizou a relevância do evento.

Ela declarou: 'O Cordão da Mentira é a própria essência do Movimento Mães de Maio. É por meio dele que encontramos a energia para prosseguir com nossa luta ao longo do ano. O Cordão nos acolhe e expõe abertamente aquilo que denunciamos, servindo também para nos lembrar que a ditadura ainda não terminou.'

Assim como outras mães presentes, Débora é uma das vítimas da violência estatal; seu filho, Edson Rogério Silva, foi assassinado pela polícia durante os Crimes de Maio.

Débora também salientou a conexão com a causa palestina, afirmando: 'Estamos aqui porque a mesma bala que atinge lá, atinge aqui. A bala que ceifa vidas lá, ceifa vidas aqui, em nossas periferias.'

Crimes de Maio

Um relatório intitulado 'Análise dos Impactos dos Ataques do PCC em São Paulo em maio de 2006', divulgado pelo Laboratório de Análises da Violência da Universidade Federal do Rio de Janeiro, revelou que ao menos 564 pessoas perderam a vida durante as ondas de ataques dos Crimes de Maio.

Conforme o mesmo documento, entre os falecidos, 505 eram civis e 59 eram agentes públicos, majoritariamente indivíduos negros, jovens e de baixa renda. O estudo também apontou suspeitas de envolvimento policial em pelo menos 122 dessas mortes, indicando execuções.

Mendonça sublinhou o caráter simbólico dos Crimes de Maio: 'Eles são extremamente significativos, primeiramente pela magnitude da barbárie. Mais de 500 jovens foram assassinados em apenas duas semanas, configurando um dos maiores massacres urbanos da história brasileira. Adicionalmente, neste ano, mais de 60 mães de vítimas de violência de todo o Brasil integram o Cordão, o que, para nós, é um ponto crucial para debatermos o futuro que almejamos para o país.'

A manifestação teve seu ponto de partida no Parque Trianon, localizado em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), e seguiu em cortejo até o Al Janiah, um restaurante e centro cultural palestino situado na região do Bixiga, no centro da capital paulista.

FONTE/CRÉDITOS: Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Elaine Cruz/Agência Brasil

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