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Terça-feira, 26 de Maio 2026
Levantamento identifica 13 perfis de jovens em maior vulnerabilidade social

Direitos Humanos

Levantamento identifica 13 perfis de jovens em maior vulnerabilidade social

Entre os grupos analisados estão juventudes negras, indígenas, quilombolas, rurais, LGBTQIAPN+, jovens mães, pessoas com deficiência, adolescentes em trabalho infantil e jovens refugiados.

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A interrupção dos estudos, a precariedade do mercado de trabalho, a violência nas cidades e o cyberbullying representam alguns dos obstáculos enfrentados por jovens em situação de vulnerabilidade de diversas categorias, conforme revelado pelo estudo "Juventudes Brasileiras Minorizadas", divulgado nesta terça-feira (26).

A pesquisa é composta por 14 artigos elaborados por especialistas de distintas áreas, complementados por depoimentos de jovens que vivenciam a disparidade no acesso a direitos fundamentais. A iniciativa editorial contou com a colaboração da Fundação Roberto Marinho, da Fundação Itaú - Itaú Educação e Trabalho, do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O levantamento compila análises sobre 13 tipos de juventudes em situação de vulnerabilidade, evidenciando que disparidades estruturais relacionadas a raça, renda, gênero e localização geográfica continuam a restringir o acesso a direitos essenciais e a perspectivas futuras.

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Dentre as categorias investigadas, destacam-se as juventudes negras, indígenas, quilombolas, residentes de áreas rurais, LGBTQIAPN+, mães jovens, indivíduos com deficiência, adolescentes em regime de trabalho infantil e jovens refugiados.

Acesso à educação

Conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua 2025, empregados na pesquisa, o Brasil possui mais de 46,5 milhões de jovens na faixa etária de 15 a 29 anos. Desses, 7,9 milhões não frequentam a escola e não concluíram a educação básica, representando 17% da população jovem. Notavelmente, sete em cada dez desses jovens são negros.

O estudo também revela que 11,9 milhões de jovens residem em condição de pobreza. No contingente de jovens em extrema pobreza, 74,9% são negros, e as mulheres negras constituem 40% da parcela jovem empobrecida da nação.

Os pesquisadores indicam que elementos como a dificuldade de acesso à internet, grandes distâncias a percorrer, a exigência de conciliar estudos com trabalho e a entrada prematura em empregos informais ou de baixa remuneração exacerbam desigualdades já existentes ao longo da história.

Rosalina Soares, superintendente de conhecimento da Fundação Roberto Marinho, explica que, ao dar voz aos jovens e coletar dados sobre os diversos perfis das juventudes brasileiras, o objetivo do estudo é subsidiar a criação de políticas públicas que levem em conta suas perspectivas.

“Por trás dos números, existem histórias de vida genuínas, aspirações frustradas e obstáculos diários frequentemente marcados por desigualdades que persistem no tempo”, declara.

Juventude rural

A pesquisa ressalta que as disparidades se manifestam de maneira ainda mais acentuada entre os jovens que vivem em regiões com maior vulnerabilidade.

Em áreas rurais, por exemplo, 33% dos jovens não estão matriculados na escola e não finalizaram a educação básica, uma proporção que dobra o índice observado em centros urbanos. A informalidade no trabalho também afeta 69% da juventude rural, em contraste com 41% dos jovens urbanos.

Entre a população indígena, a taxa de analfabetismo é o triplo daquela verificada entre os não indígenas. Adicionalmente, somente 42% dos jovens indígenas com idade entre 18 e 29 anos conseguiram concluir o ensino médio.

No que tange aos quilombolas, embora tenha havido um aumento no número de matrículas em escolas quilombolas, aproximadamente 30% dos alunos enfrentam atraso escolar.

Discriminação e violência

A publicação igualmente destaca os efeitos da violência e da discriminação sobre os percursos educacionais e as carreiras profissionais dos jovens.

Jovens negros são alvo de violência urbana em uma frequência quatro vezes superior à dos jovens brancos. Para as juventudes LGBTQIAPN+, a pesquisa indica que agressões verbais e físicas, bem como incidentes de cyberbullying, impactam diretamente sua continuidade nos estudos.

Mônica Dias Pinto, chefe de Educação do Unicef no Brasil, enfatiza que as disparidades demandam a implementação de políticas públicas coordenadas para assegurar a permanência dos estudantes na escola e sua integração no mercado de trabalho.

“Ao analisar as juventudes brasileiras, percebemos que fatores interseccionais como cor, raça e renda são cruciais para entender por que as oportunidades não se distribuem de forma equitativa para todos”, afirma.

A conexão entre nível educacional e inserção profissional também se manifesta de forma evidente entre as jovens mães. Conforme dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, na faixa etária de 15 a 19 anos, 60,8% dos jovens com filhos estão afastados da escola sem ter finalizado seus estudos.

Em depoimento à Agência Brasil, Natália Araújo, cantora e estudante de produção cultural, relata sua participação na elaboração do estudo, compartilhando sua vivência como jovem mãe da periferia e trabalhadora informal desde a adolescência:

“Engravidei aos 17 anos e meu filho nasceu quando eu tinha 18. Durante a gravidez, trabalhei em três locais, uma realidade comum nas periferias. Frequentemente, naturalizamos o trabalho infantil e a urgência de começar a trabalhar cedo, mas essa situação não deveria ser vista como normal”, declarou.

Natália ressaltou a relevância de integrar os jovens diretamente impactados pelas desigualdades na formulação de pesquisas e iniciativas governamentais:

“Sou uma exceção, pois tive a oportunidade de ser acolhida por projetos sociais e instituições que me ofereceram chances, mas essa mudança não pode depender exclusivamente de ações isoladas”, pontuou.

Trabalho infantil

O levantamento também indica que adolescentes envolvidos em trabalho infantil experimentam uma maior exclusão educacional e desafios no aprendizado.

No ano de 2024, aproximadamente 1,6 milhão de crianças e adolescentes, com idades entre 5 e 17 anos, encontravam-se em situação de trabalho infantil no Brasil, conforme dados da PNAD Contínua.

Para Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Iede, o estudo expande a compreensão sobre grupos de jovens que frequentemente permanecem à margem das estatísticas convencionais:

“O Brasil é marcado por disparidades significativas que erguem barreiras para diversos grupos ao longo de seus percursos educacionais e de inserção no mercado de trabalho. Existe uma multiplicidade de juventudes, cada uma com particularidades distintas, que demanda maior atenção, e este estudo é fundamental por lançar luz sobre 13 desses grupos”, declarou.

Os responsáveis pela organização do estudo afirmam que o levantamento pode servir de base para a elaboração de políticas públicas direcionadas à manutenção dos estudantes na escola, à proteção social, ao enfrentamento das desigualdades e à expansão do acesso a empregos dignos para jovens em condição de vulnerabilidade.

FONTE/CRÉDITOS: Anna Karina de Carvalho - repórter da Agência Brasil
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Valter Campanato/Agência Brasil

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