O ministro da Fazenda, Dario Durigan, descreveu o recente encontro em Washington entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Donald Trump, dos Estados Unidos, como um diálogo caracterizado por "deferência" e profundo respeito recíproco.
Com duração de três horas, a reunião abordou temas centrais como as relações comerciais bilaterais, a luta contra o crime organizado transnacional e a exploração de minerais considerados estratégicos.
Durante sua participação no programa Na Mesa com Datena, da TV Brasil, exibido nesta terça-feira (12), Durigan, que esteve presente no encontro, revelou que a etapa inicial da discussão foi informal, focando nas experiências de vida dos dois chefes de Estado.
Conforme Durigan, Trump ficou visivelmente surpreso ao ouvir sobre a infância de Lula, particularmente o relato de que o presidente brasileiro só provou pão aos sete anos. O ex-presidente americano também se impressionou com a trajetória de Lula, que, sem formação universitária, conseguiu expandir significativamente a rede de universidades federais em suas gestões.
A detenção de Lula também foi um ponto de discussão. Durigan contou que Trump demonstrou perplexidade ao saber que o líder brasileiro recusou opções como prisão domiciliar com monitoramento eletrônico, preferindo permanecer detido para buscar a comprovação plena de sua inocência.
O ministro afirmou que ambos os presidentes se emocionaram quando Lula narrou os aproximadamente dois anos que passou na prisão.
"O diálogo foi extremamente aberto, e fiquei bastante impressionado com a deferência demonstrada pelo presidente Trump em relação ao presidente Lula", declarou o ministro a Datena.
Durigan expressou a percepção de que a admiração de Trump por Lula se intensificou após o encontro.
O ministro acrescentou que a reunião também contou com momentos de conversas leves sobre assuntos pessoais e familiares, visando criar um ambiente de maior proximidade antes de abordar as pautas de Estado.
Debate comercial
A agenda econômica constituiu um dos eixos centrais da reunião. O governo brasileiro refutou categoricamente a ideia de que os Estados Unidos estariam em desvantagem comercial na sua relação com o Brasil.
"Os dados da gestão Trump indicavam que o déficit comercial brasileiro com os Estados Unidos alcançou US$ 30 bilhões em 2025", recordou Durigan.
Contudo, Durigan explicou que o Brasil argumentou que a aquisição de serviços, tecnologia e produtos americanos em grande volume beneficia substancialmente a economia dos Estados Unidos.
"O Brasil não deve ser penalizado com tarifas, pois nossos dólares estão sendo direcionados para os Estados Unidos", afirmou.
A posição brasileira defendia que o país não deveria ser alvo de medidas tarifárias similares às aplicadas contra a China, uma vez que o intercâmbio comercial se mostra vantajoso para os norte-americanos.
Crime organizado
A segurança pública e a repressão ao crime organizado transnacional representaram outro ponto crucial do diálogo.
Lula sugeriu intensificar a colaboração bilateral para rastrear ativos financeiros vinculados a grupos criminosos, com foco em operações de lavagem de dinheiro em paraísos fiscais e estruturas corporativas nos Estados Unidos, como as encontradas em Delaware.
"Empresas brasileiras com dívidas estão alocando recursos em Delaware, um conhecido paraíso fiscal", declarou Durigan.
O executivo brasileiro também apresentou informações indicando que uma parcela significativa das armas ilegais confiscadas no Brasil provém do território norte-americano.
"Na maioria dos casos, as armas apreendidas no Brasil têm sua origem nos Estados Unidos", afirmou o ministro.
Drogas sintéticas
Durigan mencionou que a crescente disseminação de drogas sintéticas também foi um tópico da agenda bilateral.
"Drogas sintéticas chegam ao Brasil vindas dos Estados Unidos; nosso objetivo é colaborar para combater esse contrabando", explicou.
Um desdobramento concreto do encontro foi o acordo para uma maior integração entre a Receita Federal do Brasil e a aduana americana, visando o intercâmbio de informações de inteligência e o rastreamento de fluxos financeiros.
"A estratégia eficaz consiste em sufocar a estrutura que financia o crime", declarou Durigan, defendendo uma abordagem fundamentada em inteligência financeira e cooperação global.
Minerais críticos
A exploração de minerais estratégicos foi outro ponto central das deliberações. O governo brasileiro detalhou aos representantes americanos sua estratégia para minerais cruciais à indústria tecnológica e à transição energética, incluindo nióbio, grafeno e terras raras.
"No Brasil, buscamos oferecer segurança jurídica para um setor de interesse global: os minerais críticos", salientou Durigan.
De acordo com membros do governo, Lula enfatizou que o Brasil não tem a intenção de replicar um modelo histórico focado exclusivamente na exportação de matéria-prima.
"O pilar fundamental é a soberania, seguido pelo incentivo à industrialização nacional", afirmou o ministro.
Durigan acrescentou que Lula conectou a defesa da soberania econômica do Brasil à retórica nacionalista frequentemente empregada por Trump.
"Se a sua premissa é 'América em primeiro lugar', eu afirmo que o Brasil está em primeiro lugar", reproduziu o ministro, referindo-se à declaração do presidente brasileiro.
Lula reiterou que o país não deseja repetir padrões históricos de exploração econômica que não resultem em desenvolvimento interno.
"Não queremos seguir um modelo histórico de extrair tudo daqui para depois importar produtos industrializados, como placas de aço. Meu desejo é fomentar a industrialização no Brasil", complementou o presidente.
"Não desejamos reproduzir um padrão histórico observado com o ouro ou a cana-de-açúcar", concluiu.
Guerra global
O conflito no Oriente Médio e as ameaças econômicas mundiais também foram abordados na conversa entre os dois líderes.
Conforme Durigan, Lula expressou apreensão quanto às consequências geopolíticas e econômicas dos embates internacionais para o Brasil.
"A questão de como nos preparamos e defendemos o Brasil diante de um cenário de guerra é o que mais me preocupa", relatou o ministro, transmitindo a visão do presidente.
Clima descontraído
Apesar da seriedade dos debates estratégicos, membros da comitiva mencionaram instantes de leveza durante o encontro.
Durigan narrou que, no decorrer do almoço oficial, Trump chegou a manifestar descontentamento aos garçons pela inclusão de frutas na salada que lhe foi servida.
"Ele declarou: 'Não aprecio fruta na minha salada', e os pratos precisaram ser reorganizados", revelou o ministro.
O governo do Brasil considerou que a atmosfera amigável contribuiu para pavimentar o caminho para futuras negociações comerciais, diplomáticas e estratégicas entre as duas nações.

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