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Terça-feira, 26 de Maio 2026
Fiocruz divulga estudo aprofundado sobre a saúde da população idosa no Brasil

Saúde

Fiocruz divulga estudo aprofundado sobre a saúde da população idosa no Brasil

Pesquisa aponta que 42,7% dos idosos em áreas urbanas temem quedas devido a problemas em calçadas e vias, evidenciando desafios ambientais.

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A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em colaboração com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), apresentou os resultados da terceira fase do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (Elsi-Brasil). Considerada uma das mais completas investigações nacionais sobre o envelhecimento, a iniciativa inédita disponibiliza em uma plataforma online aproximadamente 100 indicadores sobre a saúde de pessoas com 60 anos ou mais. A pesquisa abrange diversos aspectos, como condições de vida, capacidade de realizar tarefas, ambiente social e acesso a serviços públicos.

Os achados indicam que fatores urbanos, sociais e estruturais impactam significativamente a qualidade de vida dos idosos, demonstrando que o envelhecimento no Brasil apresenta desafios que vão além da ausência de doenças. Um dos pontos centrais é a percepção do ambiente urbano: 42,7% dos idosos em cidades relatam receio de cair devido a irregularidades em calçadas, passeios ou ruas próximas às suas residências. Essa estatística revela um problema de infraestrutura que afeta diretamente a mobilidade, a independência e a participação social.

Entre as mulheres idosas, o receio de quedas atinge 50,5%, enquanto entre os homens o índice é de 31,9%. A preocupação com a segurança das vias também aumenta com a idade, sendo de 35,2% para o grupo de 60 a 69 anos, elevando-se para 47,1% na faixa etária de 70 a 79 anos e chegando a 63,1% entre os maiores de 80 anos.

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“Os dados sublinham a necessidade urgente de políticas públicas focadas na adaptação das cidades para uma população que envelhece cada vez mais, incluindo melhorias na acessibilidade, segurança no trânsito, mobilidade e um planejamento urbano que contemple a todos”, avalia a coordenadora do Elsi-Brasil, Maria Fernanda Lima-Costa.

A insegurança pública também foi um aspecto relevante abordado. O estudo aponta que 12,1% dos idosos brasileiros consideram o bairro onde moram muito perigoso em relação à violência e criminalidade. Em números absolutos, isso equivale a aproximadamente 3,8 milhões de idosos vivendo em cenários de medo e vulnerabilidade social. Essa percepção é relativamente uniforme entre gêneros e faixas etárias, indicando que a violência urbana é um desafio abrangente com impacto direto na qualidade de vida, saúde mental e interação social dessa parcela da população.

Hipertensos

A hipertensão arterial continua sendo uma das condições de saúde mais significativas entre os idosos. A pesquisa, que incluiu medições de pressão arterial em domicílio com método padronizado, constatou que 34,4% dos idosos apresentam níveis compatíveis com hipertensão (pressão de 14 por 9 ou superior). Este dado representa cerca de 11 milhões de idosos brasileiros que necessitam de acompanhamento médico, diagnóstico e tratamento para evitar complicações sérias como infarto, AVC, insuficiência renal e demência vascular.

A prevalência da hipertensão cresce progressivamente com a idade: 31,9% entre 60 e 69 anos, e 40,1% entre os maiores de 80 anos. Diferentemente de outros indicadores, não foram observadas diferenças significativas entre homens e mulheres, reforçando a natureza generalizada da condição. Como a hipertensão muitas vezes não apresenta sintomas, os pesquisadores enfatizam a importância do rastreamento regular e do fortalecimento da atenção primária para prevenir diagnósticos tardios e complicações.

Mobilidade

A diminuição da capacidade funcional surge como outro ponto crucial do estudo. Os resultados mostram que 20,4% dos idosos brasileiros enfrentam dificuldades para realizar pelo menos uma atividade diária básica, como se vestir, tomar banho, comer, usar o banheiro ou se levantar da cama.

Segundo a pesquisadora, isso significa que aproximadamente 6,5 milhões de pessoas vivem com algum grau de limitação funcional, o que afeta não apenas sua autonomia, mas também seus familiares, cuidadores e os sistemas de saúde e assistência social.

Maria Fernanda Lima-Costa acrescentou que “a diferença de resultados por gênero se destaca novamente: 23,1% das mulheres apresentam limitação funcional, em comparação com 17% dos homens. A progressão com a idade é ainda mais acentuada: a prevalência aumenta de 13,9% entre 60 e 69 anos para 44,2% entre os idosos com 80 anos ou mais”, explicou.

Falta de apoio

Os dados também revelam fragilidades importantes na rede de suporte. Entre os idosos com dificuldades em atividades diárias, apenas 37,9% recebem auxílio. Essa proporção aumenta gradualmente com a idade, variando de 24,1% para 38,1% e 55,4% entre os grupos de 60 a 69, 70 a 79 e 80 anos ou mais, respectivamente.

A falta de capacitação para cuidadores também é um problema: somente 5,8% relataram ter recebido algum tipo de treinamento, evidenciando a ausência de programas estruturados para a formação e o suporte de cuidadores familiares ou informais. Esse cenário aponta para a necessidade urgente de políticas integradas de cuidado de longa duração, assistência domiciliar e qualificação profissional para aqueles que atuam no cuidado.

Os resultados reafirmam o papel fundamental do Sistema Único de Saúde (SUS) como principal provedor de cuidados para a população idosa brasileira. Cerca de dois terços dos idosos utilizam o SUS como única fonte de atenção à saúde. A cobertura é similar entre homens e mulheres e apresenta apenas uma leve diminuição nas faixas etárias mais avançadas.

A Estratégia Saúde da Família (ESF), uma das principais políticas de atenção primária do SUS, também se destaca: 69,2% dos idosos brasileiros estão cadastrados nesta iniciativa, o que representa cerca de 22,2 milhões de pessoas.

“Os dados reforçam a constatação de que o SUS e a ESF são estruturas essenciais para promover um envelhecimento saudável, especialmente em um país marcado por profundas desigualdades sociais e econômicas”, ressalta a coordenadora do Elsi-Brasil.

Painel

O painel de indicadores sobre envelhecimento, disponível na plataforma do Elsi-Brasil e lançado juntamente com os resultados da terceira onda da pesquisa, oferece acesso público e ampliado a informações sobre diversas facetas do envelhecimento no país. A ferramenta foi desenvolvida para auxiliar pesquisadores, gestores públicos, profissionais de saúde e a sociedade civil no acompanhamento contínuo das condições de vida e das necessidades da população idosa brasileira.

Em consonância com a proposta da Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), estabelecida pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), o painel adota uma perspectiva ampliada sobre o envelhecimento, que transcende a mera ausência de doenças e inclui dimensões como autonomia, capacidade funcional, segurança e condições ambientais como elementos cruciais para o bem-estar na terceira idade. Os pesquisadores consideram a plataforma um instrumento vital para responder de forma ágil e integrada aos desafios apresentados pelo envelhecimento da população brasileira.

A primeira pesquisa sobre a saúde dos idosos foi realizada entre 2015-2016, a segunda entre 2019-2021, e a terceira entre 2023-2024. Com uma metodologia alinhada internacionalmente, o Elsi-Brasil integra um grupo seleto de pesquisas globais sobre envelhecimento, posicionando o Brasil como um centro estratégico para a produção de conhecimento científico sobre o tema.

FONTE/CRÉDITOS: Agência Brasil
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Marcello Casal JrAgência Brasil

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