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Quarta-feira, 06 de Maio 2026

Educação

Pesquisa aponta que 53% dos lares brasileiros quase não praticam leitura com crianças

Levantamento da OCDE indica que disparidades educacionais começam a se manifestar já na fase da pré-escola

Sou do RN
Por Sou do RN
Pesquisa aponta que 53% dos lares brasileiros quase não praticam leitura com crianças
© Elza Fiúza/Arquivo Agência Brasil
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Um relatório internacional coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado nesta terça-feira (5), revela que 53% das famílias no Brasil raramente ou nunca leem para seus filhos de 5 anos. O levantamento focou em crianças matriculadas na pré-escola em três estados: São Paulo, Ceará e Pará.

Nessas regiões, apenas 14% dos pais ou responsáveis realizam a leitura compartilhada com frequência (de três a sete vezes por semana), enquanto a média global para essa prática é de 54%.

Os indicadores fazem parte do relatório Aprendizagem, bem-estar e desigualdades na primeira infância em 3 estados brasileiros, vinculado ao estudo internacional IELS.

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Tiago Bartholo, coordenador da pesquisa e integrante do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da UFRJ (LaPOpE), destaca que o problema atinge inclusive as classes mais altas, onde a leitura frequente não alcança 25%.

O especialista pondera que a sociedade ainda não compreendeu totalmente o papel vital da leitura mediada no processo de alfabetização. Além disso, a ausência desse estímulo prejudica o desenvolvimento integral da criança.

"Essa percepção ainda carece de maior difusão. São instantes fundamentais para garantir o bem-estar e o progresso infantil", afirma o pesquisador.

Os resultados sugerem que há espaço para fortalecer políticas públicas que integrem diferentes setores e apoiem a convivência familiar, estreitando o vínculo entre pais e escolas.

“Nossa meta é promover uma ação conjunta entre o ambiente doméstico e o escolar, potencializando o crescimento das crianças”, pontua Bartholo.

Panorama do levantamento

A análise internacional restringiu-se aos estados de São Paulo, Ceará e Pará por limitações financeiras.

O estudo foi estruturado em três eixos centrais do desenvolvimento aos 5 anos, avaliando dez competências específicas. As categorias são:

  • Conhecimentos fundamentais (habilidades básicas de linguagem e raciocínio lógico-matemático)
  • Processos executivos (capacidade de autorregulação, foco, controle de impulsos e memória de trabalho)
  • Habilidades socioemocionais (percepção de si e do próximo, empatia, confiança e comportamento social)

A pesquisa contou com a participação de 2.598 crianças de 210 instituições de ensino, sendo 80% da rede pública e 20% da rede privada.

A metodologia do IELS-2025 envolveu a coleta individual de dados por meio de atividades lúdicas e interativas, estruturadas em brincadeiras e contos adequados à idade.

O levantamento também considerou o ponto de vista de familiares e docentes sobre a evolução e o comportamento infantil, utilizando questionários específicos.

Esses dados inéditos podem servir de base para que o Brasil desenvolva políticas públicas mais assertivas para a primeira infância, ajustando ações em educação, saúde e assistência social.

Competências iniciais: literacia e numeracia

No âmbito do IELS, a literacia emergente trata do desenvolvimento de capacidades de linguagem (oralidade e vocabulário) antes do início da alfabetização formal.

Nesse domínio, o Brasil apresentou seu melhor desempenho, com uma média de 502 pontos, ligeiramente superior à média global de 500.

Houve pouca discrepância entre os diferentes níveis socioeconômicos nesse quesito, com os resultados concentrados em um patamar médio elevado.

Mariane Koslinski, também coordenadora da pesquisa na UFRJ, acredita que o sucesso nesse campo se deve a políticas públicas recentes.

“O bom resultado em literacia emergente provavelmente reflete o investimento em programas de alfabetização e na capacitação de professores”, explica a pesquisadora.

O estudo também mediu a numeracia emergente, que envolve as primeiras noções matemáticas, como contagem, comparação de volumes e percepção de tempo e espaço.

Ao contrário da linguagem, o desempenho brasileiro em matemática inicial foi de 456 pontos, ficando 44 pontos abaixo da média internacional.

Os dados revelam disparidades significativas já ao término da pré-escola.

Enquanto 80% das crianças de famílias ricas conseguem identificar numerais, esse índice cai para 68% entre as crianças de contextos socioeconômicos mais vulneráveis.

Desigualdades de raça e gênero

O Brasil foi o único participante da OCDE a realizar um recorte étnico-racial para analisar os impactos no aprendizado.

Os números confirmam que as desigualdades são cumulativas e estão ligadas ao gênero, à raça e à renda.

Meninos negros, pardos e indígenas de famílias pobres enfrentam as maiores dificuldades educacionais desde cedo.

Crianças pretas e beneficiárias do Bolsa Família registraram as pontuações mais baixas em quase todas as áreas, especialmente em matemática e memória operacional.

O abismo social fica evidente na comparação racial: crianças brancas têm vantagem de 17 pontos em linguagem e uma diferença de 40 pontos em matemática em relação às crianças pretas.

Uso de telas e impacto educacional

O IELS-2025 constatou que o uso de tecnologias digitais é recorrente entre crianças pequenas nos estados pesquisados.

Embora a carga horária exata não tenha sido medida, 50,4% dos responsáveis relataram que as crianças usam dispositivos como tablets e celulares diariamente.

Esse percentual brasileiro é maior que a média dos outros países do estudo, que é de 46%.

No Brasil, apenas 11,4% das crianças quase nunca têm contato com dispositivos digitais.

Os dados reforçam a necessidade de um uso equilibrado e supervisionado.

Bartholo observa que o uso diário de telas está associado a um desempenho inferior em leitura, escrita e matemática.

“Existe uma grande diferença entre 30 minutos de uso e quatro horas diárias, e sabemos que esse consumo excessivo é uma realidade”, alerta.

Outro ponto crítico é a baixa utilização pedagógica das ferramentas digitais no Brasil.

Cerca de 62% das crianças raramente ou nunca realizam atividades educativas em dispositivos eletrônicos, enquanto apenas 19% o fazem com frequência.

Menos tempo ao ar livre

Atividades externas, como brincadeiras livres e passeios, são frequentes em apenas 37% das famílias, abaixo da média global de 46%.

Cerca de 29% dos lares afirmam nunca realizar essas atividades ou fazê-lo menos de uma vez por semana.

O relatório enfatiza que o acesso a espaços externos e atividades culturais é vital para o desenvolvimento físico, criativo e social.

A baixa frequência pode estar ligada a custos, falta de tempo ou escassez de áreas verdes e equipamentos culturais.

O pesquisador da UFRJ defende que a escola deve ser o local primordial para a prática de atividades físicas.

“O exercício regular está conectado a melhores índices de saúde mental e cognição, impactando diretamente a memória”, diz Bartholo.

Outras formas de estímulo, como cantar, desenhar ou contar histórias criativas, também são menos comuns entre as famílias brasileiras.

Diálogo com os pequenos

Mais da metade das famílias (56%) afirma conversar sobre sentimentos com as crianças com frequência.

Contudo, esse diálogo emocional no Brasil é menos comum do que a média internacional, que chega a 76%.

Conversar sobre emoções e compartilhar experiências ajuda a fortalecer vínculos e a desenvolver competências sociais.

Por outro lado, as crianças brasileiras se destacaram em empatia, superando a média global em identificação de emoções.

Capacidades executivas

As funções executivas são habilidades que permitem à criança focar, planejar e realizar múltiplas tarefas.

A memória de trabalho foi a habilidade mais afetada pela desigualdade social, com uma lacuna de 39 pontos entre os níveis socioeconômicos extremos.

As médias do Brasil em memória, flexibilidade mental e controle de impulsos ficaram abaixo do patamar internacional.

Sobre a OCDE

O Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância está em seu segundo ciclo e inclui países como China, Coreia do Sul e Inglaterra.

O Brasil é o único país da América Latina a participar desta edição da pesquisa da OCDE.

O levantamento em solo brasileiro foi conduzido por um consórcio liderado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

FONTE/CRÉDITOS: Daniella Almeida - Repórter da Agência Brasil

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