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Domingo, 10 de Maio 2026

Economia

Juros elevados pressionam endividamento das famílias e impulsionam novo Desenrola

A professora de economia da UnB esclarece que o aumento da taxa Selic pelo Banco Central resulta em juros bancários mais caros para as famílias.

Sou do RN
Por Sou do RN
Juros elevados pressionam endividamento das famílias e impulsionam novo Desenrola
© Tomaz Silva/Agência Brasil
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Especialistas em economia apontam que a combinação da elevada taxa básica de juros – a Selic – praticada no Brasil com os expressivos spreads bancários aplicados pelas instituições financeiras tem contribuído para o crescimento do endividamento das famílias. Essa conjuntura motivou o governo a lançar, nesta semana, o Novo Desenrola.

O spread bancário representa a diferença entre os juros que os bancos pagam e os que cobram ao emprestar dinheiro aos consumidores. Em março, o spread bancário no Brasil alcançou 34,6 pontos percentuais (p.p.), um aumento significativo em comparação com os 29,7 p.p. registrados no mesmo mês de um ano anterior.

Para contextualizar, o Banco Mundial estima que o spread bancário médio global gire em torno de 6 p.p.

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Maria Lourdes Mollo, professora de economia da Universidade de Brasília (UnB), explicou que há uma relação direta: quanto maior a taxa Selic definida pelo Banco Central (BC), mais elevados são os juros aplicados pelos bancos aos consumidores.

“Os juros dos empréstimos estão em patamares muito altos. Isso tem uma relação direta, sem dúvida nenhuma, com o endividamento das pessoas, o que tem dificultado muito a economia a funcionar”, afirmou Maria de Lourdes.

A docente da UnB também mencionou a precarização dos empregos no Brasil, atribuída à reforma trabalhista do governo de Michel Temer, como um fator agravante para a situação financeira das famílias.

“Grande parte das pessoas está se endividando para complementar o orçamento, para custear despesas com saúde e do dia a dia. Este Novo Desenrola pode aliviar um pouco o orçamento das pessoas e, eventualmente, até proporcionar um estímulo à economia”, complementou Maria Lourdes.

O Brasil detém a segunda maior taxa básica de juros reais do mundo, após o desconto da inflação, marcando 9,3%. Fica atrás apenas da Rússia, um país em conflito, com 9,6%. Em terceiro lugar, aparece o México, com uma taxa de 5,0%. Os dados são do portal especializado Moneyou.

Na mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), a taxa Selic foi reduzida em 0,25 p.p., atingindo 14,5%. Apesar da queda, o patamar ainda é considerado elevado. O BC argumenta que essa taxa de juros é essencial para o controle inflacionário, embora críticos a considerem excessivamente alta.

A situação do endividamento familiar

Pelo quarto mês consecutivo, o número de famílias com dívidas no Brasil cresceu, alcançando 80% em abril, um “novo recorde histórico”, conforme pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O percentual de famílias inadimplentes, com contas em atraso, manteve-se relativamente estável em 29,7%.

“As famílias que recebem até três salários mínimos registram o maior nível de endividamento (83,6%) e o maior índice de contas em atraso (38,2%)”, ressalta a CNC.

O Brasil e a liderança no spread bancário

Juliane Furno, professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que o endividamento das famílias brasileiras pode ser explicado pelas “altíssimas” taxas do spread bancário.

“O Brasil possui um dos maiores spreads bancários do mundo, figurando no topo do ranking em algumas comparações recentes. O spread é elevado, segundo os bancos, porque a inadimplência é muito alta. Ou seja, esse valor justificaria o risco. Contudo, também posso afirmar que a inadimplência é alta porque os juros (spread) são altos”, pondera Juliana.

O ranking da World Open Data, com informações de 2024, posiciona o Brasil como o país com as maiores taxas de spread do planeta, seguido por República Tcheca, Sudão do Sul, Serra Leoa, Moçambique, Angola, Ucrânia e Timor Leste.

Dados do BC de março indicam que os bancos cobram das pessoas físicas, ou seja, das famílias, uma taxa de juros média de 61% ao ano. Para as empresas, a taxa média foi de 24%.

Maria Mello de Malta, professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pondera que, como a taxa básica do Brasil é a segunda mais alta do mundo, ela impulsiona os bancos a elevarem as taxas para a população.

“Quando a taxa Selic está alta, todas as outras taxas estão sempre mais elevadas. Quando o trabalhador vai quitar o empréstimo dele, e ultrapassa o limite e não consegue pagar o cartão de crédito, os juros serão ainda mais altos que a Selic”, afirmou Maria à Agência Brasil.

Malta acrescenta que essa situação cria uma “bola de neve”, com as famílias trabalhadoras buscando “outra fonte para conseguir pagar a primeira dívida e, assim, endividando-se progressivamente”.

Os juros mais elevados praticados no Brasil são os do rotativo do cartão de crédito, que podem superar 400% ao ano.

Detalhes do Novo Desenrola

O governo federal lançou o Novo Desenrola Brasil, um programa que visa auxiliar famílias, estudantes e pequenos empreendedores a renegociar dívidas, regularizar seu nome e restabelecer o acesso ao crédito.

A nova fase da iniciativa terá uma duração de 90 dias e prevê descontos de até 90%, juros reduzidos e a possibilidade de utilização do FGTS para abatimento de débitos.

FONTE/CRÉDITOS: Lucas Pordeus León - Repórter da Agência Brasil

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