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Domingo, 21 de Junho 2026
Pedidos de asilo no Brasil crescem 11% em 2025, aponta Acnur

Direitos Humanos

Pedidos de asilo no Brasil crescem 11% em 2025, aponta Acnur

O continente americano registrou 22,8 milhões de refugiados, com venezuelanos representando a maioria, acolhidos principalmente por nações vizinhas.

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Dados divulgados pela Agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para Refugiados (Acnur) revelam que o Brasil experimentou um aumento de 11% nos pedidos de asilo em 2025. A agência também destaca avanços nas políticas nacionais, que visam garantir acesso à regularização legal, oportunidades de emprego, serviços essenciais e caminhos para a plena inclusão social.

Esse crescimento nos pedidos de asilo no Brasil reflete uma tendência observada em todo o continente americano, que no ano anterior se tornou a principal região de deslocamento forçado globalmente, superando áreas como a África Oriental e Austral e o Oriente Médio.

Nas Américas, o número de refugiados atingiu a marca de 22,8 milhões de indivíduos, com a maioria sendo cidadãos venezuelanos. Estes foram acolhidos, em sua quase totalidade, por outras nações da América Latina ou do Caribe.

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Neste sábado, 20 de junho, celebra-se o Dia Mundial do Refugiado. Segundo Davide Torzilli, representante da Acnur no Brasil, a data serve como um alerta crucial: mais de 117 milhões de pessoas continuam deslocadas à força em todo o mundo, apesar de uma leve redução neste contingente pela primeira vez em mais de uma década.

Torzilli ressalta a importância histórica da proteção a essas populações: “Das cinzas da Segunda Guerra Mundial surgiu uma promessa: proteger as pessoas forçadas a fugir de conflitos, da violência e da perseguição. A comunidade internacional está falhando coletivamente com essas milhões de pessoas.”

O representante da Acnur instou as autoridades globais a promoverem a autonomia, a independência e soluções duradouras para os refugiados, além de intensificarem as ações humanitárias.

Ele detalhou as medidas necessárias: “Isso significa facilitar o acesso ao emprego formal e ao empreendedorismo, reconhecer qualificações, ampliar oportunidades de formação e fortalecer políticas de inclusão a quem já não pode contar com seus estados para proteger as suas vidas. Proteger uma pessoa refugiada é proteger toda a sociedade.”

A campanha da Acnur para o Dia Mundial do Refugiado deste ano visa inspirar as novas gerações a defenderem o direito ao asilo como um bem comum da humanidade e um pilar fundamental da proteção internacional. O lema escolhido para a iniciativa é: Até Cada Pessoa Estar a Salvo.

Feira

No Rio de Janeiro, a efeméride foi marcada pela realização da feira Rio Refugia, um evento coorganizado desde 2017 pelas instituições Abraço Cultural, PARES Cáritas RJ e Sesc RJ. No ano passado, a iniciativa foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Estado do Rio de Janeiro pela Assembleia Legislativa.

As edições anteriores registraram um público estimado entre 6 e 7 mil pessoas. A programação deste ano ocorre no Sesc Tijuca, na Zona Norte da capital, neste sábado (20) e domingo (21), das 10h às 18h, com uma feira gastronômica e de produtos de moda e arte, além de apresentações musicais e oficinas interativas.

Todos os expositores presentes na feira são refugiados que residem no Brasil, oriundos de nove diferentes países: Venezuela, Colômbia, Angola, República Democrática do Congo, Síria, Nigéria, Irã, Cuba e Líbano. Refugiados de outras nacionalidades também participam, atuando como mediadores nas oficinas.

As origens e as trajetórias dos participantes do evento são diversas, mas todos compartilham o objetivo de reconstruir suas vidas no Brasil com maior qualidade e dignidade.

A artesã venezuelana Mili Yanes, que divide sua vida entre Brasil e Venezuela há 14 anos, obteve autorização de residência permanente no país em 2016.

Ela compartilha sua experiência: “Eu tenho casa na Venezuela, mas eu sei que o que deixei lá eu não vou mais encontrar. Todo mundo sabe o que acontece na Venezuela. Eu vim com uma filha, depois chegaram mais dois filhos e depois chegou minha outra filha com as crianças. Eu já tenho três netinhos que nasceram aqui. Me identifiquei com o Brasil e criei uma vida.”

Anitha Agossou, natural do Benim, participou do evento ministrando uma oficina de turbantes, ao lado de sua amiga Sylivia Korberwa, originária de Uganda.

Elas se conheceram durante as aulas de português oferecidas pelo Pares Cáritas a refugiados recém-chegados que não dominam o idioma.

Anitha chegou ao Brasil em 2019, seguindo os passos de sua mãe, tio e irmão, que já estavam estabelecidos no país.

“Quando minha mãe me ligou e disse que tinha uma oportunidade de eu vir, eu não pensei duas vezes. Larguei namorado, trabalho, e priorizei minha família… Fazia uns 10 anos que eu não a via”, relata Anitha.

Formada em Comunicação e Marketing no Benim, Anitha faz questão de enfatizar que os refugiados deixam seus países para escapar de situações adversas, e não por falta de qualificação profissional.

Ela expressa sua frustração com preconceitos: “Quando a gente é refugiada, pensam que a gente vem da pobreza, do mato. Mas a gente saiu de um lugar de privilégio, porque precisava vir para cá. Eu preciso falar isso porque muitas pessoas olham pra gente com desprezo. Têm medo da gente porque acham que nós somos selvagens, que não temos educação. Mas nós temos educação.”

A amiga de Anitha, Sylivia, por exemplo, é formada em assistência social e atuava como bancária em Uganda antes de vir para o Brasil há sete anos, acompanhada de sua filha de apenas um ano. Aqui, ela foi acolhida por amigas ugandenses que já residiam no país.

“As mulheres sempre apoiam mulheres, na minha experiência”, ela diz.

Seguindo essa premissa, Sylivia dedicou-se a ajudar Anitha a conseguir uma vaga como professora na Abraço Cultural, uma das entidades organizadoras da feira. Atualmente, ambas lecionam idiomas na organização: Sylivia ensina inglês e Anitha, francês.

Recentemente, Sylivia concluiu um mestrado em Segurança Pública e Justiça na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde sua pesquisa se concentrou na situação de mulheres africanas imigrantes e refugiadas.

“Eu sou muito grata por essa oportunidade de trabalhar como professora porque foi uma experiência única, mas quero crescer profissionalmente”, ela acrescenta, indicando suas aspirações futuras.

Acolhimento

O Pares Cáritas, local onde as amigas Anitha e Sylivia se conheceram, frequentemente serve como o primeiro ponto de apoio para refugiados que chegam ao Rio de Janeiro. Lá, eles recebem acolhimento, informações cruciais sobre como regularizar sua situação no país e acessar direitos básicos, além de terem acesso a aulas de português e capacitação profissional.

De acordo com Aline Thuler, coordenadora geral do Pares Cáritas, somente no primeiro trimestre deste ano, a instituição já efetuou cerca de 1.200 atendimentos, beneficiando pessoas de quase 60 nacionalidades distintas. Quase metade desses atendimentos foi para venezuelanos, e houve um notável aumento de indivíduos provenientes do Haiti e da Síria neste ano.

Aline Thuler afirma que as leis brasileiras de acolhimento a refugiados são consideradas um modelo global, mas reconhece que existem “gargalos” na efetivação dos direitos previstos.

Ela detalha um dos desafios: “Ainda há desconhecimento de quem está na ponta sobre os refugiados, o que gera dificuldade pra ser atendido em uma unidade de saúde ou para matricular uma criança na escola…”

Contudo, o principal obstáculo, segundo a coordenadora do Pares Cáritas, reside na reinserção profissional dos refugiados.

“A gente tem muita gente com nível de graduação, às vezes mestrado e quando chega ao Brasil, não consegue trabalhar na área de formação. A burocracia é muito grande para validar o diploma e exige documentação que às vezes um refugiado não tem como conseguir”, explica Thuler.

Aline Thuler também alerta que essa dificuldade na inserção profissional torna os refugiados mais suscetíveis à exploração e, em casos extremos, ao trabalho análogo à escravidão.

Ela conclui com um apelo às empresas: “É preciso sensibilizar as empresas para duas coisas, explicar que ele não está empregando uma pessoa ilegal, que o refugiado pode trabalhar e também que essa pessoa tem os mesmos direitos que o trabalhador brasileiro.”

FONTE/CRÉDITOS: Tâmara Freire – repórter da Agência Brasil
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Tânia Rêgo/Agência Brasil

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