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Terça-feira, 02 de Junho 2026
Pequena África busca maior reconhecimento turístico

Economia

Pequena África busca maior reconhecimento turístico

Apesar de sua relevância histórica para a diáspora africana e a formação do Brasil, a Pequena África ainda não alcança o destaque turístico internacional que merece.

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Ao visitar o Rio de Janeiro, os turistas geralmente priorizam o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e a orla da zona sul. Contudo, uma área com crescente presença nos roteiros, rica em história e palco de manifestações da cultura afro-brasileira, é a Pequena África.

Situada às margens da Baía de Guanabara, a região engloba o Cais do Valongo, reconhecido como o principal porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas e declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO em 2017.

Especialistas reunidos na Feira Preta Festival, encerrada no último domingo (31) no Píer Mauá, apontam que, apesar da importância histórica do Valongo para a compreensão da diáspora africana e da formação do Brasil, a Pequena África ainda carece do reconhecimento turístico internacional que lhe seria devido.

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Antonio Pita, jornalista e gestor, além de um dos idealizadores da plataforma Diáspora Black, defende que a Pequena África deveria figurar entre as principais atrações globais da cidade, dada a sua riqueza de atrativos.

"Muita gente associa o Rio de Janeiro a praias e festas, mas ainda não conectou o turismo com esse aspecto histórico e tradicional", observou.

A região também é lar do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), que abriga vestígios do período de desembarque de escravizados, assim como o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos e a Pedra do Sal. Estes locais compõem o Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana.

Adicionalmente, a Pequena África sedia o Grupo Afoxé Filhos de Gandhi, um dos mais antigos blocos afro de carnaval do Rio. Todos os anos, em 2 de fevereiro, o grupo homenageia Iemanjá e participa do carnaval, seguindo a tradição do bloco de Salvador, de onde se originou.

Pita celebra que a região já atrai muitos visitantes, impulsionada por seu apelo cultural e gastronômico. No entanto, ele ressalta que a experiência oferecida aos turistas muitas vezes é incompleta.

"As pessoas visitam a Pedra do Sal, o Largo da Prainha com seus restaurantes e bares, e museus como o MAR e o Museu do Amanhã, mas frequentemente deixam de conhecer o Cais do Valongo. Elas partem sem entender a importância fundamental da Pequena África para a ocupação da cidade, para o samba e para o carnaval. Tudo isso teve início aqui", enfatiza.

Adriana Barbosa, diretora executiva da Preta Hub, um espaço de economia colaborativa, destaca a relevância do local, que sediou a edição deste ano da Feira Preta.

"Estamos aqui, em um local que outrora foi um mercado de pessoas africanas escravizadas. Hoje, vivemos uma lógica econômica diferente, onde pessoas negras não são mais mercadorias, mas sim protagonistas de relações comerciais baseadas em nossa identidade e criatividade."

A edição contou com a participação de aproximadamente 130 empreendedores e recebeu 10 mil visitantes.

Investimento em divulgação

Emily Borges, afro-turismóloga e fundadora da Etnias Turismo e Cultura, que participou do debate sobre o tema no Festival, defende a inclusão da Pequena África em guias turísticos e roteiros de grandes agências, além de um investimento em divulgação em locais estratégicos como os aeroportos da cidade. Para Borges, o turismo representa uma experiência de memória e conexão.

"Em um mundo cada vez mais acelerado, talvez o verdadeiro luxo das viagens resida na profundidade das experiências vivenciadas", reflete.

Segundo Pita, operadores de turismo e hotéis também precisam incluir este roteiro em suas ofertas.

"Temos o produto, possuímos bons operadores e guias com vasto conhecimento, mas ainda percebemos uma certa resistência em destacar este destino", avalia.

Pita exemplifica o potencial de destinos autênticos com o caso da Rocinha, lembrando o sucesso nas redes sociais de um vídeo de drone que mostra a comunidade. Ele relata que, nas lajes da favela, turistas chegam a formar filas de até duas horas e pagam R$ 150 por um vídeo com vista panorâmica da área.

Apesar dos encantos e da riqueza histórica da Pequena África, especialistas e moradores concordam na necessidade de apoio e políticas públicas para o território.

Entre as demandas estão investimentos em sinalização e conservação, incluindo serviços de coleta de lixo e segurança pública. "É essencial considerar o território como um todo; se ele é bom para o morador, será igualmente bom para o turista", ponderou o gestor do Diáspora Black.

O Ministério do Turismo, de acordo com os especialistas, tem contribuído para a consolidação da Pequena África como um roteiro internacional. Uma iniciativa recente, em 2025, foi a realização do encontro global de afroturismo, o Black Travel Summit. "É um movimento em ascensão, que está gerando visibilidade", comentou Pita.

Para apoiar as organizações da Pequena África na oferta de experiências que valorizam a herança africana, o Diáspora Black e a Feira Preta irão oferecer treinamento e recursos através do edital Rede Memória Viva. O edital também visa mapear roteiros afro com potencial de desenvolvimento comunitário em todo o país.

FONTE/CRÉDITOS: Isabela Vieira - Repórter da Agência Brasil
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Tomaz Silva/Agência Brasil

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