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Quarta-feira, 20 de Maio 2026
Aproximadamente 90% dos moradores de comunidades do Rio desaprovam operações policiais violentas

Direitos Humanos

Aproximadamente 90% dos moradores de comunidades do Rio desaprovam operações policiais violentas

Pesquisa inédita ouviu mais de 4 mil pessoas em quatro grandes comunidades da capital fluminense: Maré, Penha, Alemão e Rocinha.

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A grande maioria dos residentes de comunidades no Rio de Janeiro, cerca de nove em cada dez, manifesta desaprovação em relação a operações policiais que envolvem confronto armado, seguindo o padrão observado nos últimos anos na cidade.

Esses resultados provêm de um estudo pioneiro conduzido por seis entidades da sociedade civil, que investigou a opinião de moradores de quatro comunidades sobre essas ações policiais.

O levantamento, intitulado 'Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?', foi divulgado nesta quarta-feira (20).

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Foram realizadas 4.080 entrevistas presenciais com residentes do Complexo do Alemão, Complexo da Penha e da Maré, situados na zona norte do Rio de Janeiro, e da Rocinha, na zona sul. As entrevistas ocorreram entre 13 e 31 de janeiro deste ano, com uma distribuição equitativa de 1.020 participantes em cada comunidade. A coordenação do estudo ficou a cargo de Eliana Sousa Silva, diretora fundadora da Redes da Maré.

O cenário de confronto armado recorrente motivou a realização desta pesquisa. Apenas na Maré, entre 2023 e 2025, foram registradas 92 operações policiais com confrontos, resultando em mortes e feridos.

De acordo com Eliana Silva, "não se pode presumir que o morador que vive ali, que precisa se deslocar diariamente para o trabalho ou para levar os filhos à escola, aprove esse tipo de operação de forma simplista, sem contextualização. É preocupante que essa ideia seja generalizada". Ela expressou essa preocupação à Agência Brasil.

Brutalidade policial

As conclusões indicam que 73% dos moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha discordam do modelo atual de operações policiais. Em contrapartida, 25% manifestaram concordância e 2% não forneceram resposta.

Ao serem questionados sobre a continuidade das operações no formato presente, 92% desaprovaram, 68% afirmaram que as ações precisam ser reformuladas, e 24% opinaram que operações policiais em favelas não deveriam ocorrer.

Mesmo entre aqueles que aprovam as operações, apenas 20% defendem o modelo vigente. Eliana ressaltou a importância de compreender o contexto, indo além da percepção histórica de que esse tipo de intervenção é a única abordagem policial possível nas favelas.

Eliana salientou que, para uma parcela significativa da população, os moradores de favelas são retratados de maneira negativa, o que pode levar à crença de que o confronto armado é a solução mais eficaz contra o crime nessas áreas. Contudo, os impactos dessas operações na vida cotidiana dos residentes raramente são considerados.

Para 91% dos moradores, há excessos e ilegalidades cometidos pela polícia durante essas operações. Essa percepção é compartilhada por 85% daqueles que apoiam as ações. Um total de 90% dos entrevistados considera os excessos inaceitáveis. Dentre os que reprovam as operações, 95% condenam a brutalidade.

Entre os que concordam com as operações em favelas, 74% rejeitam os abusos policiais. "Ou seja, concordar com as operações não significa aceitar a violência", a pesquisa aponta.

Segundo Eliana Silva, não existe uma solução eficaz para o combate ao crime organizado sem uma visão ampliada e coletiva da cidade.

"A abordagem atual é focalizada. O problema são as favelas. E os próprios moradores acabam sendo influenciados por essa perspectiva, que também é disseminada pela mídia", observou.

No entanto, quando interrogados sobre abusos policiais e violações de direitos, a maioria expressa discordância.

Direitos e Impactos

O objetivo do estudo, conforme declarado pelos organizadores, é analisar como o combate ao crime afeta os moradores das comunidades, que frequentemente ficam impossibilitados de sair para trabalhar ou estudar.

Desde 2016, organizações comunitárias atuantes diretamente nas áreas pesquisadas buscam compreender o impacto desses confrontos nas comunidades e gerar conhecimento sobre o tema.

"Observamos uma escalada nesses enfrentamentos, na forma como a violência se manifesta e, também, na sua naturalização", comentou Eliana Silva.

A coordenadora do estudo mencionou o impacto na educação. Com 140 mil habitantes, o Complexo da Maré, por exemplo, conta com um conjunto de escolas municipais para atender a comunidade.

"Essas escolas existem, mas não operam com a qualidade necessária porque fecham e ficam sem aulas por períodos extensos, de 30 a 40 dias".

Para Eliana Silva, a pesquisa visa demonstrar que os moradores dessas comunidades devem ser reconhecidos como sujeitos com direito à cidade.

A restrição de mobilidade surge como o impacto mais frequente das operações policiais na vida dos residentes, apontado por 51% dos que desaprovam as operações e por 41,5% dos que as aprovam.

Em seguida, aparece a invasão ou violação de domicílios, estabelecimentos comerciais ou veículos, citada por 37,5% dos que discordam e 22,9% dos que concordam com as operações.

Tiroteios frequentes e a ocorrência de balas perdidas foram mencionados por 30,5% dos que discordam e por 20,7% dos moradores que declararam concordar com essas intervenções policiais.

Contexto Eleitoral e Alternativas

Somente em 2025, a letalidade na Maré aumentou 58% em comparação a 2024. Eliana Sousa Silva defende a busca por métodos alternativos de combate ao crime em favelas, sem o uso intensificado de armas.

Eliana Silva citou o direcionamento de emendas parlamentares para a aquisição de fuzis para a polícia do Rio de Janeiro, como exemplo.

"É altamente questionável quando vemos que recursos públicos, que deveriam ser destinados a ampliar a capacidade e o acesso das pessoas a políticas públicas, estão sendo utilizados para comprar mais armamento para a polícia".

Na operação mais letal já registrada na capital fluminense – ocorrida nos complexos do Alemão e da Penha em outubro do ano passado, com 122 mortos –, ficou evidente que os moradores de favela não endossam nem concordam com esse tipo de confronto, assegurou a diretora fundadora da Redes da Maré.

"Eu acredito que todos nós, que temos origem na favela, ficamos profundamente incomodados com esse processo".

Quando perguntados se operações semelhantes deveriam se repetir, 85% dos moradores responderam negativamente, 7% disseram que às vezes e 7% afirmaram que sim.

Para Eliana Silva, neste ano eleitoral, a questão da segurança pública ganhará destaque.

"Porque temos candidatos que acreditam que a solução para a segurança pública é invadir as favelas com o objetivo de eliminar traficantes ou milicianos, sem considerar o morador. E é exatamente essa abordagem que precisa ser revista".

Ela enfatiza a importância de os eleitores conhecerem os projetos dos candidatos em relação à violência e ao combate ao crime organizado, e de desconfiarem de promessas genéricas.

Racismo e Percepções

Eliana Silva ressalta que, embora as políticas públicas e os recursos deveriam ser distribuídos equitativamente entre toda a população, isso não acontece. Consequentemente, observa-se uma condição de subalternidade para certos cidadãos, como os moradores de favela, cujo direito fundamental à vida é ameaçado durante operações com confronto armado.

"No caso dos moradores de favela, das populações de baixa renda, há claramente uma estratégia de confronto que resulta, em muitos casos, em processos genocidas e chacinas. Portanto, chamamos a atenção para isso, pois lutamos intensamente pelo direito à vida".

Analisando o recorte racial dos entrevistados, a desaprovação das operações policiais atinge 81% entre pessoas negras, embora seja majoritária em todos os grupos raciais. A aprovação dessas operações registrou seu pico (30%) entre pessoas brancas.

O estudo também revela que a percepção de racismo nas operações policiais é predominante. Questionados se há racismo no planejamento e execução das operações em favelas, 61% responderam afirmativamente, 13% ocasionalmente e 25% negativamente.

Os jovens são os que mais discordam das operações policiais em favelas. Na faixa etária de 18 a 29 anos, 79% são contra. Segundo o estudo, esse índice pode estar associado à maior exposição (direta ou indireta) às dinâmicas de violência decorrentes das operações policiais.

"Isso pode ocorrer porque são eles que frequentam os espaços públicos no momento em que a polícia intervém, ou porque são alvos de processos de criminalização, ou ainda pela proximidade com outros jovens – faixa etária que concentra a maioria das vítimas nesses casos", a pesquisa detalha.

Medo e Insegurança

O receio da polícia também foi um ponto abordado na pesquisa. "Lembro-me de quando o veículo blindado começou a ser usado como única forma de presença na favela e foi apelidado de 'caveirão'. Realizamos muitas conversas com as crianças sobre isso, e o próprio nome já transmitia uma sensação de medo", recorda Eliana.

No total, 78% dos moradores das quatro favelas relataram sentir pouco ou bastante medo da polícia durante as operações. Esse percentual chega a 85% entre os que se opõem às operações e 59% entre os que as apoiam.

Observa-se uma clara inversão na percepção do papel do Estado na proteção do cidadão, que se repete quando os moradores são questionados sobre indignação ou revolta em relação às operações: 50% dos entrevistados declararam sentir grande indignação, 25% um pouco e 24% afirmaram não sentir indignação ou revolta.

Entre os que aprovam as operações, 61% relataram sentir indignação ou revolta em relação aos grupos armados. Chama a atenção, contudo, que nesse mesmo grupo, o medo das forças policiais (59%) supera o medo dos grupos armados (53%).

Isso demonstra que, mesmo entre aqueles que apoiam as operações, a polícia é percebida como uma fonte de medo mais frequente do que os próprios grupos armados que as operações visam combater. A dedução é que os moradores de favelas convivem com duas fontes de violência: a policial e a criminal.

Entidades Participantes

A pesquisa foi realizada pelas organizações Fala Roça (Rocinha), Frente Penha, Instituto Papo Reto (Alemão), Instituto Raízes em Movimento (Alemão), Redes da Maré e A Rocinha Resiste, todas com atuação direta nos territórios investigados.

O estudo contou com o apoio da Cátedra Patrícia Acioli da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), Fundação Tide Setúbal, Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto Fogo Cruzado, Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Open Society Foundations.

FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra – repórter da Agência Brasil
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Joédson Alves/Agência Brasil

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