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Segunda-feira, 01 de Junho 2026
Dia Mundial sem Tabaco: novas tecnologias disfarçam vapes, apresentando novo desafio

Saúde

Dia Mundial sem Tabaco: novas tecnologias disfarçam vapes, apresentando novo desafio

Diretor executivo da Fundação do Câncer, cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, expressa preocupação.

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A crescente sofisticação tecnológica no disfarce de cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes, tem facilitado seu consumo entre os jovens, levantando o receio de um aumento nos casos de câncer no Brasil. A advertência parte do diretor executivo da Fundação do Câncer e cirurgião oncológico, Luiz Augusto Maltoni.

Este alerta da instituição ecoa o tema da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Dia Mundial sem Tabaco, celebrado neste domingo (31): “Desmascarando o apelo, combatendo a dependência de nicotina e tabaco”.

A comercialização de vapes é proibida no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009. Contudo, o uso desses aparelhos tem se expandido rapidamente. A aquisição desses produtos ocorre com facilidade através de redes sociais, plataformas online e pelo comércio informal.

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Dados recentes da Receita Federal sublinham a urgência no combate a esses itens: somente entre janeiro e fevereiro de 2026, foram apreendidas 238.801 unidades de cigarros eletrônicos no território nacional, uma média superior a 4 mil dispositivos apreendidos diariamente.

'Aparelhos camuflados'

Diversos desses dispositivos operam sem odor perceptível, enquanto outros incorporam aromatizantes. Muitos emitem apenas vapor, o que pode passar despercebido, abrindo portas para o desenvolvimento precoce de dependência, formando assim uma nova geração de viciados em nicotina.

Os disfarces tornam os vapes menos reconhecíveis como cigarros eletrônicos e, à primeira vista, menos perigosos, pois adotam novas formas e funcionalidades. Eles agora surgem integrados a acessórios e ao cotidiano de maneira quase imperceptível.

Entre os formatos que chamam a atenção estão os vaporizer hoodies, moletons com vaporizadores embutidos. O bocal do aparelho fica oculto na ponta do cordão do capuz, permitindo a inalação discreta de nicotina.

“De forma totalmente planejada, e eticamente questionável, criam até casacos com bocais escondidos para que a pessoa possa fumar”, critica Maltoni.

Esses disfarces permitem que os jovens utilizem o vape em locais como o metrô ou a escola sem serem notados. “Tudo isso para tornar o jovem dependente”, complementa o diretor.

Luiz Augusto Maltoni ressalta que esses aparelhos camuflados ameaçam décadas de progresso nas políticas de controle do tabagismo no Brasil, que historicamente diminuiu a prevalência de fumantes e serviu de modelo internacional.

“O que observamos agora é um risco concreto de retrocesso, disfarçado em tecnologia e incorporado ao dia a dia dos jovens.”

Campanha

Neste Dia Mundial sem Tabaco, a Fundação do Câncer reforça seu Movimento Vape Off e expande suas ações com a campanha “Spoiler: ele não te ama”. A iniciativa apresenta um vídeo, no formato de reportagem, onde três jovens relatam um relacionamento abusivo que resultou em seu adoecimento.

O objetivo é alertar a juventude sobre a natureza enganosa da apresentação desses cigarros pela indústria e sobre os reais malefícios que eles causam.

“E sugere que quem nunca experimentou, não o faça para evitar o vício. E para quem já fuma, que procure parar”, enfatiza Maltoni.

Conforme a Fundação do Câncer, os novos dispositivos integram tecnologia e interatividade, com telas sensíveis ao toque, jogos, música e sistemas de mensagens, alinhando-se aos hábitos atuais com celulares, tablets e redes sociais.

Alguns modelos possuem sistemas que reagem à interrupção do uso, emitindo sons e criando um ciclo contínuo de estímulo. Maltoni avalia que esse processo representa a convergência entre dependência química e digital.

“O vape deixa de ser apenas um objeto e passa a funcionar como um acessório interativo, integrado à rotina”, alerta.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 indicam que a experimentação de cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos saltou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024. Isso significa que o número de jovens nessa faixa etária que já experimentaram ou usam cigarros eletrônicos quase dobrou. “Isso é alarmante”, avalia o cirurgião oncológico.

Consequências

Milena Maciel de Carvalho, consultora da Fundação do Câncer em tabagismo, destaca que, no caso de cigarros eletrônicos entre adolescentes de 13 a 17 anos, a questão transcende o comportamento ou a escolha individual.

“A exposição à nicotina na adolescência pode prejudicar o desenvolvimento cerebral, especialmente nas áreas ligadas à atenção, aprendizado, humor e controle de impulsos, além de aumentar a suscetibilidade à dependência de nicotina ao longo da vida”, explica.

“Esses dispositivos também podem expor os usuários a substâncias nocivas, como partículas ultrafinas, compostos orgânicos voláteis e metais pesados. Estão igualmente associados a riscos respiratórios e cardiovasculares”, acrescenta.

Medidas

O diretor executivo da Fundação do Câncer defendeu a implementação de medidas no Brasil para coibir a fabricação de vapes. Ele citou o exemplo da Inglaterra, que, apesar de sua histórica liberalidade e de ser um polo de desenvolvimento da indústria do tabaco, tomou medidas drásticas.

“Mas, diante da tragédia causada pela indústria do tabaco e pelos cigarros eletrônicos, com problemas pulmonares em jovens, a Inglaterra proibiu a venda de qualquer produto de tabaco para indivíduos nascidos após 1º de janeiro de 2009.”

Adicionalmente, o país intensificou restrições à publicidade, promoção e ao apelo dos vapes junto a crianças e adolescentes. “Penso que devemos seguir essa direção”, defende Maltoni.

FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Joédson Alves/Agência Brasil

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