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Sábado, 30 de Maio 2026
O brincar livre deve ser um compromisso social com a infância

Direitos Humanos

O brincar livre deve ser um compromisso social com a infância

A celebração do Dia Mundial do Brincar, ocorrida na quarta-feira (28), impulsionou eventos nacionais e reacendeu o debate sobre o papel crucial das atividades lúdicas no crescimento humano.

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O ato de brincar é reconhecido como um direito fundamental, assegurado tanto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) quanto pela Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU). Na última quarta-feira (28), a celebração do Dia Mundial do Brincar mobilizou iniciativas em diversas localidades do país e, mais uma vez, instigou a reflexão acerca da relevância das atividades lúdicas para o desenvolvimento humano, com foco especial na população infantil.

Para aprofundar o assunto, a Agência Brasil entrevistou Sarah Menezes Rocha, pesquisadora e docente universitária com expertise na área. Mãe de uma criança de 1 ano, ela atua como formadora de professores e é conselheira da Aliança pela Infância, uma organização global dedicada à proteção da infância que, há vinte anos, promove a data no Brasil.

Em um manifesto divulgado nas redes sociais na semana anterior, a Aliança pela Infância destacou que o brincar constitui a via primordial para a criança "existir, manifestar-se, processar emoções e decifrar o universo ao seu redor".

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A organização ressaltou a urgência de dedicar tempo às brincadeiras, especialmente em uma sociedade crescentemente dominada por dispositivos eletrônicos e telas.

Segundo o texto da entidade, "o brincar espontâneo é essencial para que as crianças se desenvolvam, estabeleçam laços e interajam com os demais, cultivando sua humanidade". Além disso, afirma que "brincar representa a forma como a criança se integra à sociedade, sendo uma manifestação de cidadania e democracia".

As comemorações do Dia Mundial do Brincar deste ano se estendem até o próximo domingo (31). A Aliança pela Infância disponibilizou em sua plataforma online um calendário nacional de eventos, envolvendo escolas, grupos, instituições e comunidades em todo o território, com o objetivo de convocar a sociedade a defender ativamente esse direito fundamental.

Confira a seguir a entrevista

Agência Brasil: Poderia a senhora elucidar o que é o brincar, oferecendo uma definição precisa e detalhando sua relevância?

Sarah Menezes Rocha: O brincar é, essencialmente, a linguagem intrínseca da infância. Representa o modo pelo qual a criança interage com o ambiente, com outras pessoas e consigo mesma. Ao se engajar em brincadeiras, a criança não está meramente preenchendo o tempo ou se entretendo; ela está, na verdade, explorando o mundo circundante, exercitando a imaginação, formulando hipóteses, vivenciando diversas emoções, estabelecendo conexões e, ainda, interpretando a cultura.

No Brasil, observamos uma vasta diversidade de manifestações lúdicas, com cada região apresentando suas peculiaridades. As crianças, nesse processo, atuam como verdadeiras criadoras de cultura, enriquecendo o amplo mosaico cultural brasileiro.

Agência Brasil: Há um limite etário para a prática do brincar?

Sarah Menezes Rocha: Não, de forma alguma. Embora o brincar seja inerente à infância, ele nos acompanha ao longo de toda a vida. Como adultos, é fundamental cultivarmos a sensibilidade de reconectar com essa criança interior, que sempre reside em nós.

Agência Brasil: O brincar desempenha um papel crucial na constituição do ser humano?

Sarah Menezes Rocha: Sim, o brincar constitui um ambiente singular e essencial para a formação do indivíduo. Por meio da brincadeira, a criança adquire habilidades como negociar, exercitar a paciência e manejar diversas situações e desentendimentos. O brincar é, sem dúvida, a fagulha primordial da construção humana.

Agência Brasil: A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), diretriz do Ministério da Educação que estabelece os saberes essenciais para os alunos, integra o brincar ao currículo da educação infantil. Como essa abordagem lúdica tem sido implementada?

Sarah Menezes Rocha: Pela perspectiva da Aliança pela Infância, observamos iniciativas admiráveis em escolas, tanto públicas quanto em ambientes não-escolares. Contudo, no ensino fundamental, persiste a concepção de que a criança já superou a fase da infância.

No ambiente educacional, as disciplinas frequentemente ocupam o espaço antes dedicado e valorizado à brincadeira. No entanto, o brincar não pode ser relegado a uma posição secundária no currículo; sua importância deve ser plenamente reconhecida.

Atualmente, há um risco considerável na escolarização precoce da infância, que envolve a antecipação de conteúdos e exigências avaliativas, prejudicando o desenvolvimento natural. A criança necessita desse espaço para brincar, mesmo durante o ensino fundamental.

Agência Brasil: As instituições de ensino estão devidamente preparadas para fomentar o brincar?

Sarah Menezes Rocha: Atualmente, as escolas enfrentam uma intensa pressão por resultados. É imperativo que discutamos essa questão com a devida responsabilidade.

Constatamos uma antecipação da mentalidade produtivista para a infância, onde se espera que as crianças também atuem como "seres produtores". Mesmo os mais jovens são frequentemente submetidos a um volume excessivo de atividades estruturadas, metas e estímulos, dispondo de pouco tempo para vivências espontâneas.

Entretanto, essa problemática não se origina apenas no ambiente escolar, mas sim na comunidade em geral. É fundamental que haja um compromisso coletivo e social com o brincar. Isso implica em ações tanto no âmbito educacional e familiar quanto na formulação de políticas públicas eficazes.

Agência Brasil: De que forma podemos estimular o brincar, e qual seria o ponto de partida?

Sarah Menezes Rocha: Podemos assegurar ritmos menos apressados para as crianças, tanto no âmbito familiar quanto no escolar. É importante valorizar as vivências ao ar livre, utilizar espaços urbanos seguros como praças e parques, e exigir das autoridades a manutenção da segurança nesses locais. Além disso, podemos incentivar brincadeiras coletivas em casa e no condomínio, sempre incluindo as crianças nas decisões.

É crucial expandir a capacidade de escuta, pois as crianças necessitam ser ouvidas. Elas são capazes de indicar como podemos criar oportunidades para o brincar de maneira livre. O desenvolvimento humano saudável se concretiza quando proporcionamos os ambientes adequados para que a criança possa, de fato, ser criança.

FONTE/CRÉDITOS: Isabela Vieira - Repórter da Agência Brasil
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Tomaz Silva/Agência Brasil

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