A formação de novas carteiras de investimentos pelo Banco Master, com o objetivo de captar recursos no mercado financeiro em um período de severa crise de liquidez da instituição, controlada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, foi o fator que despertou a atenção do Banco Central (BC) para possíveis irregularidades na gestão. A declaração foi feita nesta terça-feira (19) pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.
A liquidez bancária refere-se à capacidade de uma instituição financeira honrar seus compromissos de curto prazo, ou seja, ter fundos prontamente disponíveis para cobrir suas obrigações.
“Quando um banco enfrenta dificuldades de liquidez, a lógica é que ele não constitua novas carteiras. Pelo contrário, em uma situação de escassez de recursos, a medida esperada seria a venda de carteiras existentes. A questão que gerou o alerta imediato do Banco Central foi justamente a tentativa de comercializar carteiras recém-criadas”, detalhou Galípolo aos membros do Senado.
O presidente do BC aproveitou a ocasião para reiterar a defesa da atuação da autoridade monetária em relação ao Banco Master, instituição que enfrenta acusações de envolvimento em fraudes bilionárias no setor financeiro.
Galípolo informou que, em novembro de 2024, um termo de compromisso foi firmado com o Banco Master. O acordo estabelecia um prazo de seis meses para que a instituição promovesse ajustes em sua governança, capitalização e níveis de liquidez.
Posteriormente, o Master iniciou um processo de captação de recursos no mercado, utilizando garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Contudo, a instituição logo encontrou restrições para continuar as captações via FGC. Na sequência, o Banco Master tentou obter financiamento junto a fundos de investimento, mas sem êxito.
“De imediato, o banco intensificou as operações de venda de carteiras, um movimento que já vinha ocorrendo desde 2023, com destaque para as transações realizadas com o BRB”, detalhou Galípolo.
Atualmente, a Polícia Federal investiga a negociação de carteiras de investimentos entre o Banco Master e o Banco Regional de Brasília (BRB), uma instituição pública vinculada ao Governo do Distrito Federal (GDF). A suspeita recai sobre uma possível fraude envolvendo aproximadamente R$ 12,2 bilhões em créditos comercializados. Uma tentativa do BRB de adquirir o Master também foi registrada, mas a operação não recebeu a aprovação do Banco Central.
A partir de janeiro de 2025, diante da persistência dos problemas de liquidez e da formação de novas carteiras de investimentos pelo Master, o Banco Central instituiu um grupo dedicado à análise aprofundada dessas operações. A liquidação extrajudicial do Banco Master foi decretada dez meses depois, em 18 de novembro de 2025, após a recusa da compra da instituição de Daniel Vorcaro pelo BRB.
Previamente à liquidação, o Banco Master apresentou uma alternativa que, supostamente, envolveria investidores árabes. Contudo, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou não ter tido conhecimento sobre a identidade ou a existência desses investidores.
“Após a rejeição da proposta de aquisição pelo BRB, o banco encaminhou uma nova solicitação ao FGC e ao Banco Central, propondo uma ‘saída organizada’ do mercado. Isso significava que a instituição reconhecia sua inviabilidade, mas propunha realizar uma autoliquidação, transferindo-se para esses supostos investidores árabes. Reitero que jamais tive qualquer informação sobre a identidade deles”, concluiu Galípolo.
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Risco sistêmico
O presidente do Banco Central reiterou sua posição de que a liquidação do Banco Master não representava um risco sistêmico para o mercado financeiro, ou seja, não havia potencial para desencadear uma crise bancária generalizada.
“O Banco Master não se enquadra como uma instituição de risco sistêmico, representando menos de 0,5% do total do sistema bancário. Acredito que o foco da atenção pública reside, na verdade, na destinação dos recursos que estavam sob gestão do Banco Master”, ponderou.
Galípolo ressaltou, ainda, que a medida de liquidação de um banco não deve ser interpretada como uma punição aos seus gestores, uma vez que o público, incluindo os correntistas, é quem acaba sendo prejudicado.
“Considerar a punição de uma instituição que foi lesada por má gestão seria um erro, pois isso implicaria em uma dupla penalização para as vítimas, que são, em muitos casos, os próprios correntistas. Portanto, a liquidação de uma instituição não visa punir seus administradores. Essa medida é adotada unicamente quando a instituição atinge um ponto de inviabilidade insuperável”, concluiu.

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