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Sábado, 06 de Junho 2026
Economistas alertam para risco de cooptação do Banco Central com PEC no Senado

Economia

Economistas alertam para risco de cooptação do Banco Central com PEC no Senado

Um grupo de especialistas divulgou um manifesto contra a Proposta de Emenda à Constituição 65/2023, em discussão na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

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A proposta de emenda à Constituição (PEC), em análise no Senado, que visa conceder autonomia financeira e orçamentária ao Banco Central (BC), pode facilitar a influência do setor financeiro sobre a autoridade monetária, responsável pela regulação e fiscalização da área. Além disso, a medida é vista como um fator que pode contribuir para a manutenção de taxas de juros elevadas no Brasil.

Essa é a análise de renomados economistas brasileiros, que nesta semana divulgaram um manifesto se posicionando contra a PEC 65 de 2023. A proposta está atualmente na pauta de votações da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

“A PEC estabelece uma independência seletiva: ela distancia o BC do controle democrático do Estado (incluindo o Congresso Nacional, o Tribunal de Contas da União – TCU, e o Poder Executivo), mas o mantém estruturalmente suscetível às pressões do mercado financeiro. Com isso, os mecanismos de contenção dos poderes constituídos são perdidos, enquanto os canais de acesso do setor privado permanecem abertos”, afirma o documento.

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Entre os signatários do manifesto estão figuras como Luiz Carlos Bresser-Pereira, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-ministro da Fazenda, e Luiz Gonzaga Belluzzo, professor de economia da Unicamp e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda. A lista completa dos nomes pode ser consultada ao final desta matéria.

O manifesto argumenta que a PEC enfraquece a fiscalização, o controle social e a capacidade de responsabilização do Banco Central, além de potencialmente agravar a dívida pública. Os especialistas alertam que a medida pode criar um modelo globalmente inédito, que combina autonomia financeira e operacional para a autoridade monetária.

Impacto na taxa de juros

O documento ressalta que o dinheiro que seria retido pelo Banco Central por meio da senhoriagem – a receita gerada pela emissão de moeda – deriva das condições macroeconômicas que o próprio BC deve gerenciar. Isso poderia gerar um conflito de interesses entre o objetivo público e o orçamento da instituição.

“O BC passaria a se beneficiar institucionalmente de cenários macroeconômicos que deveria controlar em prol do interesse público, e não para seu próprio orçamento. E, como a senhoriagem está ligada aos juros, o Banco Central do Brasil teria um conflito de incentivos em relação à manutenção de taxas de juros elevadas”, explicam os economistas.

Atualmente, o Brasil detém a segunda maior taxa de juros reais do mundo, superado apenas pela Rússia, um país em conflito. Juros altos são o principal fator impulsionador do aumento da dívida pública nacional.

Receita da emissão de moeda passaria ao BC

Em 2021, foi promulgada uma lei que concedeu ao BC autonomia administrativa e operacional em relação ao governo. Contudo, a instituição ainda depende do Orçamento da União para financiar suas atividades.

A PEC 65 pretende expandir essa autonomia, permitindo que o Banco Central retenha os recursos obtidos pela senhoriagem. Essa receita foi de R$ 23,3 bilhões anuais entre 2017 e 2025, enquanto o orçamento anual do BC no mesmo período foi de R$ 4,8 bilhões.

“A senhoriagem corresponde a aproximadamente cinco vezes o custo de funcionamento do Banco. A PEC abre caminho legal para a apropriação patrimonialista da senhoriagem e confere uma imensa flexibilidade fiscal ao BC, o que contrasta com os cortes de gastos sociais exigidos pelo mercado financeiro e pelo presidente do BC [Gabriel Galípolo]”, detalha o texto.

Defesa da PEC por Galípolo e bancos

A PEC 65 conta com o apoio da diretoria do Banco Central, sob a liderança do presidente Gabriel Galípolo. Ele argumenta que a instituição opera no limite de seus recursos para cumprir sua missão de fiscalizar e regular o sistema financeiro.

A proposta também é endossada por bancos privados, que são regulados e fiscalizados pelo BC. A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) manifestaram-se favoravelmente à medida.

O polêmico caso Master

Os signatários do manifesto contrário à PEC 65 mencionam a emenda do Banco Master, apresentada à proposta pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI). Essa emenda está sob investigação da Polícia Federal (PF) por suspeita de ter sido redigida pela instituição de Daniel Vorcaro, com o objetivo de ampliar a capacidade de fraude no sistema financeiro.

“Um Banco Central orçamentariamente autônomo e desvinculado da supervisão parlamentar torna-se, estruturalmente, um regulador mais suscetível à pressão do setor que supervisiona. Os parágrafos 8º e 9º do novo artigo 164 do substitutivo ampliam os mecanismos de auxílio financeiro emergencial”, afirmam os economistas.

Para os especialistas, a PEC torna o BC mais “vulnerável à interferência política, de lobistas e do setor financeiro na nomeação de diretores e na composição de seu quadro funcional”.

Fiscalização fragilizada

Os signatários do manifesto apontam ainda que a proposta desmantela os mecanismos de fiscalização e responsabilização orçamentária, atualmente previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA).

“A PEC desestrutura esses mecanismos de forma sistemática – retirando o BC da LOA e enfraquecendo a jurisdição do TCU”, diz o manifesto.

O documento lembra que o Banco Central aprova, supervisiona e pode socorrer as mesmas instituições que, indiretamente, contribuem para seu orçamento. “Essa é a definição clássica de um regulador capturado: um agente concebido para servir ao público, mas cujos incentivos o aproximam sistematicamente dos interesses dos regulados”, complementa o texto.

Para os economistas, a PEC fragiliza os mecanismos de controle social do Banco Central ao remover o orçamento da instituição da LOA, o que reduz “a capacidade de supervisão efetiva do Congresso, do TCU e da sociedade sobre decisões com amplo impacto macroeconômico”.

Aumento da dívida pública

Os economistas salientam que a medida contribuirá para o aumento da dívida pública do governo, ao desviar receitas do Tesouro Nacional que passariam a ser controladas pelo Banco Central.

“Com a PEC, a senhoriagem [receita proveniente da emissão de moedas] deixaria de abater a dívida, pois seria interpretada como ‘receita própria’ do BC, sem a obrigatoriedade de transferência para o Estado brasileiro.”

Modelo único no mundo

Os economistas que subscrevem o manifesto refutam a justificativa apresentada pelo relator, senador Plínio Valério (PSDB-MA), de que a PEC se alinha às melhores práticas internacionais.

“Nenhum dos principais bancos centrais do mundo possui a combinação de autonomia financeira, isenção orçamentária e blindagem parlamentar que a PEC pretende estabelecer”, afirma o documento, que analisa os casos dos bancos centrais dos Estados Unidos (EUA), Reino Unido, Zona do Euro e Japão.

Signatários

  • Luiz Carlos Bresser-Pereira - FGV, ex-Ministro da Fazenda
  • Luiz Gonzaga Belluzzo - Unicamp, ex-Secretário de política econômica do Ministério da Fazenda
  • Flavia Dantas – SUNY – Cortland
  • Pedro Paulo Zahluth Bastos - Unicamp
  • Élida Graziane - FGV e Procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo
  • Paulo Nogueira Batista Jr. – Economista
  • Leda Paulani – USP
  • Ladislau Dowbor – PUC-SP
  • Maria de Lourdes Rollemberg Mollo – UNB
  • Haroldo Silva - Presidente do Corecon – SP
  • Isabel Busato – UFRJ
  • André Modenesi – UFRJ
  • Lena Lavinas – UFRJ
  • Luiz Fernando de Paula – UFRJ
  • Vanessa Petrelli Corrêa - UFU
  • Carlos Aguiar de Medeiros – UFRJ
  • Rosa Maria Marques - PUC-SP
  • Simone Deos - Unicamp
  • Antônio Prado – Vice-Presidente do Corecon – SP
  • Adriana Amado - UNB
  • Pedro Rossi – Unicamp
  • Gilberto Bercovicci – USP
  • Larissa Naves de Deus Dornelas - UFPR
  • Marco Antônio Rocha - Unicamp
  • Juliane Furno – UFF
FONTE/CRÉDITOS: Lucas Pordeus León - Repórter da Agência Brasil
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): © Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

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